Copa do Mundo, eleições polarizadas, guerra e pressão inflacionária são alguns dos cenários que impactam nas instituições de ensino superior particulares. Em paralelo, como as políticas públicas de avaliação e financiamento podem responder a esse momento? Essas foram as questões centrais da tarde do segundo dia do XVIII Congresso Brasileiro da Educação Superior Particular (CBESP), nesta quinta-feira (22), no Hotel Sheraton, no Rio de Janeiro/RJ.
Dois painéis conduziram os trabalhos da tarde. O primeiro reuniu economistas para um diagnóstico do ambiente macroeconômico e seus efeitos sobre o setor educacional. O segundo encerrou o dia com um debate sobre políticas públicas, inteligência artificial na regulação e os desafios do Enamed, exame de avaliação dos cursos de medicina.
Cenário econômico
O terceiro painel, sobre a economia do Brasil em ano de Copa, eleição e guerras em andamento, foi coordenado pelo membro do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) e CEO do Grupo Ser Educacional, Jânyo Diniz, com a participação do diretor de Planejamento e Relações Institucionais do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, Nelson Henrique Barbosa Filho, do economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, e do presidente do BRB Card e ex-superintendente executivo de Governo da Caixa Econômica Federal, Celso Eloi Cavalheiro.
O painel foi conduzido no formato talk show, com os três debatedores respondendo diretamente às provocações de Jânyo Diniz. O tom foi de análise técnica sem alinhamento partidário, com diagnósticos convergentes sobre os riscos de curto prazo e algum otimismo moderado para o médio prazo.
Nelson Barbosa abriu com objetividade: o impacto da Copa do Mundo na economia é, na sua avaliação, praticamente nulo para países não sede. O que de fato preocupa é o novo choque do petróleo. Com a experiência dos anos 70 como referência, ele alertou que choques desse tipo têm efeitos estruturais permanentes e que, no curto prazo, já pressionaram a inflação para cerca de cinco pontos percentuais, reduzindo o espaço para corte da Selic, a taxa básica de juros. “A Selic provavelmente vai cair menos do que se esperava, mas pode retomar queda mais rápida a partir do segundo trimestre do ano que vem”, disse.
Sobre as eleições, Nelson foi cuidadoso ao evitar juízo sobre candidatos, mas assertivo quanto às tendências: qualquer governo eleito enfrentará pressão por moderação fiscal entre 2027 e 2030. “Independente do resultado eleitoral, haverá um período de maior contenção”, afirmou. Para o setor educacional, os pontos de atenção imediatos são a entrada em vigor da reforma tributária e a eventual redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas, dois movimentos que tendem a elevar custos operacionais.
Roberto Padovani, do Banco BV, foi mais incisivo no diagnóstico de curto prazo. Para ele, o Brasil vive um descasamento raro: a economia agregada vai bem, impulsionada pelo agronegócio e pela exportação de petróleo, mas os setores dependentes de crédito sofrem sob tensão financeira crescente. O Banco BV, segundo ele, tomou a decisão de segurar crédito logo após o início do conflito no Oriente Médio, em março, e provavelmente todos os demais bancos fizeram o mesmo, agravando o problema. “A mensagem é: teremos alguns meses de absoluta cautela. Primeiro conselho: caixa. Segundo: educação é um setor que depende de renda, e a renda disponível tende a apertar”, resumiu.
O presidente do BRB card, Celso Eloi, direcionou o olhar para o setor educacional. Destacou que o ensino superior privado já responde por mais de 70% das matrículas do país e que o EAD, que há quatro anos representava menos de 40% das matrículas, hoje ultrapassa 50%. Para ele, o cenário eleitoral é uma oportunidade que o setor não pode desperdiçar: o momento exige mobilização política para colocar na agenda dos candidatos pautas como a ampliação do FIES (Fundo de Financiamento Estudantil) e do Prouni (Programa Universidade para Todos), além do autofinanciamento institucional como alternativa de sustentabilidade. “O que for plantado agora, a gente vai colher em 2027”, disse.
Ao encerrar o painel, Nelson Barbosa fez um contraponto ao pessimismo de curto prazo com uma observação sobre a resiliência da economia brasileira pós-pandemia: quatro choques relevantes nos últimos anos, e o país foi absorvendo cada um deles. “A questão não é se o Brasil tem capacidade de atravessar. Tem. O desafio é como cada setor vai fazer a travessia”, concluiu.
IA na educação, novo modelo de avaliação e os impasses do Enamed
O quarto e último painel do dia, sobre educação superior e desenvolvimento nacional, foi coordenado pelo presidente da Associação Brasileira das Mantenedoras das Faculdades (Abrafi) e diretor geral da ABMES, Paulo Chanan. Participaram o conselheiro da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação (CNE) e presidente do Conselho de Administração da ABMES, Celso Niskier, o pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de Brasília, Paulo Meyer Nascimento, e o presidente do Instituto de Educação Médica (IDOMED) e vice-presidente do grupo educacional YDUQS, Silvio Pessanha Neto, que integrou a mesa em adição à programação original.
Niskier abriu apresentando o trabalho realizado nos últimos dois anos pela comissão bicameral do CNE sobre inteligência artificial na educação. O resultado é um parecer orientador, ainda em consulta pública, que não tem caráter normativo, mas estabelece princípios e diretrizes para o uso da IA nas IES. “A autonomia já é um direito das instituições. O que estamos fazendo é dar uma direção e segurança regulatória para quem já inova”, afirmou.
O documento propõe uma classificação de riscos em quatro níveis. No nível de baixo risco estão ferramentas de organização de materiais, tradução automática e revisão textual não avaliativa. No nível moderado entram tutores virtuais, assistentes instrucionais e apoio à produção textual. No nível de alto risco estão a correção automática de avaliações e o proctoring biométrico, ambos com exigência de supervisão humana. E no nível excessivo, vedado na prática, estão sistemas de identificação de emoções sem avaliação profissional e decisões exclusivamente automatizadas sobre promoção ou certificação de alunos. “Nós vimos em 2019, numa visita à China, uma câmera atribuindo emoções a alunos em sala de aula. Não estamos prontos para isso”, disse Niskier.
O conselheiro do CNE convocou o setor a participar da consulta pública, que já reunia mais de 100 contribuições nos primeiros dias. O parecer deve ser votado no pleno do CNE em agosto e, segundo Niskier, o ministro da Educação já sinalizou intenção de homologá-lo ainda em 2026. “No dia seguinte ao Diário Oficial, o documento já vai estar desatualizado. Mas era preciso dar uma direção”, pontuou.
Paulo Meyer Nascimento apresentou uma proposta de reformulação do Sinaes (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior), desenvolvida no IPEA. Em sua análise, o modelo atual é caro, ineficiente e de difícil compreensão para estudantes e sociedade. A proposta central é substituir a lógica centrada no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) por uma cesta de indicadores baseada em quatro dimensões: efetividade, medida pela inserção dos egressos no mercado de trabalho e em programas de pós-graduação a partir de dados da Receita Federal e da Capes; eficiência, avaliada pelas taxas de conclusão; e equidade, que considera o perfil socioeconômico dos estudantes atendidos.
Para Paulo Meyer, o sistema ideal avaliaria as IES considerando sua diversidade de missão e contexto territorial, e não aplicaria os mesmos critérios a uma universidade de pesquisa e a uma faculdade no interior do Maranhão. Abordou também modelos de financiamento estudantil vinculados à renda futura, como alternativa ao FIES em sua configuração atual. A proposta, que segue a lógica do chamado modelo australiano, prevê que o estudante pague um percentual da renda a partir do momento em que se inserir no mercado, sem inadimplência nos períodos em que não tiver renda suficiente. “A Receita Federal tem que estar envolvida. Só ela tem a prerrogativa de aferir e recolher renda”, afirmou.
Encerrando o painel, Silvio Pessanha Neto apresentou um diagnóstico detalhado sobre o Exame Nacional de Medicina (Enamed), em vigor desde 2025. Ele reconheceu a importância do exame e a coerência de sua matriz de referência com as diretrizes curriculares, mas apontou tensões que precisam ser enfrentadas: a ausência de série histórica que respalde a calibragem das questões, as limitações metodológicas na definição do ponto de corte de proficiência, os riscos jurídicos decorrentes de cautelares aplicadas na primeira edição do exame e o descasamento do calendário com a virada de base das IES.
“Estamos todos a favor do Enamed. A questão é que ele chegou com high stakes logo na primeira edição, antes de haver maturidade suficiente no sistema”, disse. Pessanha defendeu que os microdados da prova de quarto ano sejam formalmente incorporados ao processo de avaliação programática dos cursos, o que exigiria uma retificação na Portaria 330, atualmente em discussão com o INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). Para ele, a evolução natural seria integrar o resultado do exame de sexto ano ao processo avaliativo interno das escolas, de forma que um estudante não proficiente não cole grau, mas tenha a oportunidade de recuperar suas lacunas antes de ingressar no mercado.
XVIII CBESP
Com o encerramento do segundo dia, o XVIII CBESP chega à sua programação final neste sábado (23), com painéis sobre a nova fase do Enade, um talk show sobre governança e compliance e a Carta da Cidade Maravilhosa, consolidando as principais diretrizes de atuação do setor.